segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Pentateuco Em Questão

1. INTRODUÇÃO

Segundo a tradição rabínica, seguida pelo Cristianismo, Moisés é o autor de todo o Pentateuco. Alguns radicais, como Filo e Josefo, chegaram a declarar que teria escrito acerca da própria morte (Dt 34.5). Mas o Talmude reconhece ter Josué escrito este trecho.

Segundo uma tradição, aceita pelos pais da Igreja (apesar de reconhecerem a autoria mosaica), os rolos foram perdidos devido a um incêndio, e foram totalmente reescritos mediante inspiração do Espírito Santo por Esdras. Esta tradição está apoiada em um escrito apócrifo – 4 Esdras 14.21,22:

“Porque a tua lei foi queimada, de modo que ninguém sabe as coisas que foram feitas ou serão feitas por ti. Se tenho achado graça diante de ti, envia o Espírito Santo a mim, e escreverei tudo que tem acontecido no mundo desde o princípio, as coisas que foram escritas na tua lei, afim de que homens possam ser capazes de encontrar o caminho, e a fim de que aqueles que desejam viver nos últimos dias possam viver(1)”

Já nos primórdios da era cristã, alguns começaram a duvidar da autoria mosaica, tais como os nazarenos e os ebionitas. Mas as primeiras argumentações de peso começaram na Idade Média, com pensadores tais como Ibn Ezra. Isto prosseguiu na Idade Moderna, com Baruque Espinosa, Carlstadt e Andreas Masius.

A Teoria Documentária, segundo a qual várias fontes foram unidas para formar o Pentateuco – tornando-o um livro de vários autores – começou a ser delineada em 1753 pelo professor de Medicina em Paris, Jean Astruc. Observando a freqüência com que aparecem os nomes divinos Elohim e Yahweh, elaborou a tese de que foram usados dois documentos para a redação do Pentateuco.

Esta idéia evoluiu no final do século XIX para a “hipótese Graf-Wellhausen”, elaborada por Julius Wellhausen e Karl H. Graf, segundo a qual o Pentateuco era o resultado de quatro documentos: Javista (J, cerca de 950 a.C.), Eloísta (E, século VIII a.C.), Deuteronomista (D, século VII a.C.) e Sacerdotal (P, século V a.C.). Desde então, esta hipótese tem servido de base para a crítica literária do Antigo Testamento. Hoje ela está bastante elaborada, e muitas das vezes cada um desses documentos ou fontes é subdividido em documentos e/ou fontes menores. Vale salientar que muitos aceitam uma fonte G (do alemão Grundlage, “fundamento”), onde as tradições J e E estão de tal forma fundidas que é impossível separá-las. Isto seria indicado pelo uso feito em muitas passagens da combinação Yahweh Elohim – cerca de 417 vezes.

No presente trabalho, iremos detalhar acerca da fonte javista, que segundo muitos estudiosos é a mais antiga.

2. A FONTE JAVISTA: CARACTERÍSTICAS

Inicialmente, era tida como a fonte que utilizava exclusivamente o nome Yahweh. Hoje, essa tradição é assim conhecida pela preferência que dá em utilizar o nome Yahweh (Javé). Deste modo, muitas passagens que sequer utilizam o Tetragrama Sagrado são reputadas javistas, como o longo trecho de Gn 42 - 47. Ainda segundo esta tradição, o nome divino Yahweh é utilizado desde os tempos pré-diluvianos (Gn 4.26). Desconhece então a suposta revelação deste nome divino, feita somente na época de Moisés (Êx 3.14,15).

O estilo javista é vívido e colorido, numa forma cheia de imagens e com um modo de narrar realmente magistral. Combina simplicidade com grandeza; tradições simples e agrupamentos de tradições, solidez de enredo e depuração de estilo, economia de expressão e controle emocional. Prima pela explicação de etimologias: o homem (Adam) assim é denominado por ter sido formado do pó da terra (adamah); a mulher (ishah) por que foi tomado do homem (ish); a torre de Babel por que ali o Senhor confundiu (balal) a língua de toda a terra; e assim por diante.

Teologicamente, não está tão preocupado com uma declaração religiosa formal; antes, ela dá uma resposta profunda aos graves problemas que se apresentam a todo o homem, e as expressões humanas de que se serve para falar de Deus (antropomorfismo) encobrem um senso muito elevado do divino, destacando a proximidade de Deus e o seu íntimo relacionamento com o homem. Como prólogo à história dos antepassados de Israel, ela colocou um sumário da história da humanidade desde a criação do primeiro casal. Desta forma, ressalta a continuidade do propósito de Deus desde a criação, passando pelos patriarcas até o papel de Israel como seu povo. Exalta os grandes patriarcas, mas não esconde os erros destes, trazendo um retrato humano bastante realista: a embriaguez de Noé (Gn 9.18 – 27); a mentira de Abraão em contar que Sara era sua irmã, e não esposa (Gn 12.10 – 20); os enganos de Jacó, como em Gn 27; a violência de Moisés (Êx 2.11 – 23).

Esta tradição teve origem em Judá e talvez tenha sido escrita no reinado de Salomão, entre 950 e 850 a.C. O autor é desconhecido, mas provavelmente recebeu apoio governamental para elaborar uma espécie de “epopéia nacional”, como uma exaltação nacionalista do jovem reino de Davi e Salomão. Este ímpeto nacionalista leva o javista, por exemplo, a ignorar que Abraão tenha sido guiado por Deus a Canaã, e evita utilizar o nome cananeu El para Deus. A situação política no reinado salomônico era propícia: paz, prosperidade, e o reino na sua máxima expansão. Observe o texto de 1 Reis 3.20 – 28:

“Eram, pois, os de Judá e Israel muitos, como a areia que está ao pé do mar em multidão, comendo, e bebendo, e alegrando-se. E dominava Salomão sobre todos os reinos desde o rio Eufrates até à terra dos filisteus, e até ao termo do Egito; os quais traziam presentes e serviram a Salomão todos os dias da sua vida. Era, pois, o provimento de Salomão, cada dia, trinta coros de flor de farinha e sessenta coros de farinha; dez vacas gordas, e vinte vacas de pasto, e cem carneiros, afora os veados, e as cabras monteses, e os corços, e as aves cevadas. Porque dominava sobre tudo quanto havia da banda de cá do rio Eufrates, de Tifsa até Gaza, sobre todos os reis da banda de cá do rio; e tinha paz de todas as bandas em roda dele. Judá e Israel habitavam seguros, cada um debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira, desde Dã até Berseba, todos os dias de Salomão. Tinha também Salomão quarenta mil estrebarias de cavalos para os seus carros e doze mil cavaleiros. Proviam, pois, estes provedores, cada um no seu mês, ao rei Salomão e a todos quantos se chegavam à mesa do rei Salomão: coisa nenhuma deixavam faltar. E traziam a cevada e a palha para os cavalos e para os ginetes, para o lugar onde estava cada um, segundo o seu cargo”

A fonte javista está distribuída pelos livros de Gênesis, Êxodo e Números. Alguns alegam que Deuteronômio 34 e determinadas partes de Josué, Juízes e Samuel também receberam influência javista. No conjunto de textos que lhe são atribuídos, distingue-se às vezes uma corrente paralela que tem a mesma origem, mas que reflete concepções por vezes mais arcaicas e por vezes diferentes, designadas pelas siglas JI (javista primitiva), L (javista leiga) ou N (javista nômade).

Não existe concordância entre os estudiosos acerca de quais passagens são javistas. Isto porque há uma tentativa de reconstrução da ideologia e vocabulário específico que possa identificá-la, além da averiguação das passagens duplicadas. Abaixo fornecemos uma lista da tradição javista espalhada por Gênesis-Êxodo-Números, baseada na lista delineada por Norman K. Gottwald(2). Esta nos dá uma visão panorâmica de como a tradição javista auxiliou na elaboração das narrativas acerca da história primeva, da história patriarcal e da história mosaica.

GÊNESIS

História Primeva

Criação do Mundo e queda do Homem: 2.4 – 3.24 (o relato de 3.1 – 24 mesclado a tradições eloístas)

Caim e Abel: 4.1 - 26

Filhos de Deus e as filhas dos homens: 6.1 - 4

Dilúvio: 6.5 – 8; 7.1 – 5, 7 – 10, 12, 16b, 17, 22 – 23; 8.2b – 3a, 6, 7a, 8 – 12, 13b, 20 – 22

Noé e seus filhos: 9.18 – 27

Quadro de Nações: 10.8 - 19,21,24 – 30

A Torre de Babel: 11.1 – 9

História de Abraão

Abraão desposa Sarai: 11.28 – 30

Chamado e viagem até Canaã: 12.1 – 4a, 6 – 9

Abraão e Sarai no Egito: 12.10 – 20; 13.1

Abraão e Ló se separam: 13.2 – 5, 7 – 11a, 13 – 18

Vitória de Abraão (?): 14.1 - 24

Aliança de Yahweh com Abraão: 15.1,2,4,6,12, 17 – 21

Nascimento de Ismael e fuga de Agar: 16.1b, 2, 4 – 14

Sodoma e Gomorra: 18.1 – 23; 19.1 – 28, 30 – 38

Nascimento de Isaque: 21.1,2,7

Acréscimos javistas à narrativa eloísta da provação de Abraão: 22. 14 – 18

Descendentes de Naor: 22.20 – 24

Casamento de Isaque com Rebeca: 24.1 – 67

Descendentes com Cetura: 25.1 – 6,11b

História de Jacó
Nascimento de Esaú e Jacó: 25.21 - 26

Esaú renuncia a sua primogenitura: 25.27 - 34

Isaque e Rebeca em Gerara: 26.1 - 11

Pacto entre Isaque e Abimeleque: 26.12 – 33

Jacó rouba a bênção de Esaú: 27.1 – 45

Sonho de Jacó: 28.10 – 11a, 13 – 16, 19

Jacó desposa Lia e Raquel: 29.1 – 30

filhos de Jacó: 29.31 – 35; 30.4 – 5,7 – 16, 21, 24

Jacó ganha riqueza por fraude: 30.25, 43

Fuga de Jacó e pacto com Labão: 31. 1 – 3, 17, 19a, 20 – 23, 25b, 27, 30a, 31, 36a, 38 – 40, 46 – 49, 51 – 53a

Jacó prepara-se para reencontrar-se com Esaú: 32.3 – 11, 13a

Jacó luta com Deus: 32.22 - 32

Reencontro de Jacó com Esaú: 33.1 – 3, 12 - 17

História de Diná: 34.1 - 31

Incesto de Rúben: 35.21 – 22a

História de José
Sonho de José: 37.2b – 20, 25 – 27, 28b

Judá e Tamar: 38.1 - 30

Tentação e Prisão de José: 39.1 - 23

Primeira visita dos irmãos ao Egito: 42.4 – 5, 8 – 11a, 12, 26 – 28a, 38

Segunda visita dos irmãos ao Egito: 43.1 - 34

José põe à prova seus irmãos: 44.1 - 34

Reconciliação de José com seus irmãos: 45.1, 4, 5a, 16 - 28

Jacó instala-se no Egito: 46.28 – 34; 47.1 – 4, 6b

Política agrária de José: 47.13 - 26

Morte de Jacó: 47.29 - 31

Bênção de Jacó: 49.2 - 28

Sepultamento de Jacó: 50.1 – 11, 14


ÊXODO

Opressão de Israel no Egito: 1.8 – 12, 22

Nascimento de Moisés (?): 2.1 - 10

Moisés foge para Midiã: 2.11 – 23a

Chamado de Moisés e sua volta ao Egito: 3.2 – 4a, 5, 7, 8, 16 – 22; 4.1 – 12, 19, 20a, 22, 23

Yahweh tenta matar Moisés: 4.24 - 26

Encontro com Arão e o povo: 4.27 - 31

Moisés solicita adoração no Deserto: 5.1 – 6.1

Praga da água transformada em sangue: 7.14 – 18,20b, 21a, 23, 24

Praga das rãs: 7.25 – 8.4, 8 - 15

Praga das moscas: 8.20 - 32

Praga sobre o gado: 9.1 - 35

Praga da Saraiva: 9.13 - 35

Praga de Gafanhotos: 10.1 - 20

Praga das trevas: 10.21 - 29

Anúncio da Praga final: 11.1 - 8

Instituição da páscoa: 12.21 – 23, 27b

Praga a morte os primogênitos e libertação de Israel: 12.29 - 36

Saída do Egito: 12.37 – 39; 13.20 - 22

Os egípcios perseguem os israelitas: 14.5 – 7, 10 - 14

Israel atravessa o mar: 14.19b – 21b, 24, 25, 27b, 30, 31

Cântico de Moisés: 15.1 - 18

Israel em Mara e Elim: 15.22 – 25a, 27

Provisão do Maná: 16.4, 5, 28 – 31, 35b, 36

Água da Rocha: 17.2 – 7

Passagens mescladas com a tradição eloísta: 19.2b – 23.23; 24.1 – 15; 32 – 34

NÚMEROS

Moisés e Hobabe (Jetro?): 10.29 – 32

A arca portátil: 10.33 – 36

Espias enviados a Canaã: 13.17b – 20, 22 – 24, 27 - 33

Israel murmura contra Moisés e Yahweh: 14.1 – 4, 11, 25

Derrota de Israel em Horma: 14.39 – 45

Rebelião de Data e Abirão: 16.1b, 2a, 12 – 15, 25 – 32a, 33, 34

Edom recusa passagem a Israel: 20.19 – 20, 22a

Vitória na Batalha de Horma: 21.1 – 3

Serpente de Bronze: 21.4 – 9

Movimento de Israel através da Transjordânia: 21.10 – 20

Balaque chama Balaão para amaldiçoar Israel: 22.3b – 8, 13 – 19, 21 – 37, 39, 40

Oráculos de Balaão: 23.28 24.2 – 25

Apostasia de Israel em Peor: 25.1 – 5

Distribuição de terra na Transjordânia: 32.1, 16 – 19, 24, 33 – 42

1.A FONTE JAVISTA EM GÊNESIS

A fonte javista vai compor quase que na sua totalidade o livro de Gênesis. Conforme poderemos constatar, são poucos os trechos deste livro que receberam influência de outra fonte. Ela se preocupa em detalhar a história dos grandes patriarcas de Israel – Abraão, Jacó e José, colocando um prólogo acerca das origens da humanidade. Principalmente aqui em Gênesis, a pecaminosidade humana é ressaltada, o que influencia até mesmo os grandes patriarcas antepassados de Israel – estes apresentam falhas que não são ocultadas.

História Primeva

Segundo o ponto de vista javista, a razão de ser da criação do mundo foi o homem (2.4 – 3.24). É bem econômico em descrever o mundo criado que cerca o homem: toda planta do campo ainda não estava na terra, e toda erva do campo ainda não brotava porque ainda não havia homem (2.5,9); o jardim no Éden com um rio o regando (2.10 – 15); os animais foram criados para tentar resolver o problema da solidão do homem (2.18 – 20); a mulher foi criada para ser seu complemento (2.21 – 25). Tudo é mostrado de tal forma a evidenciar que o homem é a obra prima de Deus (2.7): o homem foi moldado (yatsar, o mesmo verbo utilizado para o ofício do oleiro, e.g. em Jr 18.1 - 8) a partir do pó da terra. Deus criou um jardim no Éden, no qual colocou o homem, que se responsabilizaria por ele (2.8). Deus então é descrito como o amigo íntimo do homem. Mas, como qualquer amigo, não quer se sentir traído. A desobediência a uma estipulação sua põe em risco todo este carinho (2.16,17).

O javista deixa claro, então, que o homem foi criado para um estado de felicidade absoluta. Porém, desobedeceu a Deus (3.1 – 24). A desobediência trouxe a quebra de comunhão com este Deus que sempre colocou o homem como o centro de suas atenções – trouxe o pecado. Apesar da proximidade de Yahweh, o que revela uma relação bastante afetuosa, Yahweh reage de forma enérgica com relação à obstinação pecaminosa do homem. O relato a queda é bem dramático, demonstrando todas as conseqüências trágicas à humanidade. Por isso, não podemos entender os primórdios da humanidade sem entendermos a história do pecado na humanidade. O estado pecaminoso sempre coloca o homem em pé de guerra com Deus: Caim, o primeiro homicida, com uma descendência igualmente violenta (4.1 – 24); as filhas dos homens (6.1 –4); a violência se multiplicando na face da terra (6.5 – 6); a arrogância na construção da torre de Babel (11.1 – 9). Mas Deus sempre encontra, em meio a perversidade humana, aqueles que são sensíveis ao seu amor: Abel (4.4), Enos (4.26), Noé (6.8). Com a expressão “achar graça aos olhos do SENHOR” (6.8; Êx 34.9; Nm 11.11), entre outras, o javista contrapõe a pecaminosidade humana com a bondosa graça divina.

Um momento chave na história da humanidade é o dilúvio. A versão javista é esta: em meio a uma geração perversa, Noé achou graça aos olhos do Senhor (6. 5 – 8); convida-o, juntamente com sua família, a entrar em uma arca (sem especificar como esta foi construída), a fim de se salvarem do dilúvio que assolará a terra e durará quarenta dias (7.1 – 5). De todos animais, sete pares devem ser guardados dos animais limpos e dois dos imundos (7.2). O dilúvio começa após sete dias (7.7 – 10). Em quarenta dias, tudo na terra expira, exceto Noé e seus familiares (7.12, 16b, 17, 22, 23). Ao final de quarenta dias, cerram-se as fontes do abismo e as janelas do céu (8.2b – 3a). Para verificar se as águas já haviam secado de sobre a face da terra, solta um corvo e uma pomba (8. 6 – 13). Noé então sai da arca e oferece holocaustos em agradecimento ao Senhor (8.20 – 22).

Neste prólogo, o javista procura mostrar que o homem sempre esteve preocupado com o pecado e suas conseqüências em sua história. O remédio para a humanidade, então, está na criação de um povo especial, conforme delineado em Gn 12 – 50. Por isso, antes de mostrar a origem de um povo especial, detalha acerca da origem das diversas nações, conforme 11.1 – 9. Arrogantemente, os homens se uniram com um projeto audacioso: construir uma torre que alcançasse o topo dos céus, para que fizessem seus nomes notórios. Como castigo, eles que falavam uma mesma língua, são espalhados por toda a face da terra, com diferentes línguas. Esta é a versão javista, em contraposição à outra versão contida no capítulo 10 para a origem das nações (o javista, entretanto, irá inserir neste capítulo alguns versículos, 10.8 - 19,21,24 – 30).

História de Abraão

Para o javista, o momento chave para a humanidade é a chamada de Abrão, que dará origem ao povo de Israel (12.1 – 3), e por isso Pai da Nação do Senhor. Esta tradição usa o nome Abraão a partir de 18.6 sem explicar o porquê da mudança. Exceto em 12.10 – 20, Abraão é retratado como um verdadeiro exemplo de piedade: obediente à voz de Deus (12.1 – 4a), com uma fé firme (15.6), sempre adorando o Senhor com construção de altares (12.7,8; 13.4,18). Mais uma vez o ímpeto nacionalista é demonstrado: a simples existência do povo de Israel é causa de bênção a todos os povos (12.3). Era casado com Sarai, estéril (embora mais à frente o javista dê a entender que isto devido à sua avançada idade), e saiu de sua terra natal, Ur dos Caldeus, rumo à terra que o Senhor mostraria (11.28 – 30; 12.1). Esta terra não é especificada como Canaã. Seu sobrinho Ló o acompanhou (12.4a). Chegou então a Siquém, até o Carvalho de Moré, onde edificou um altar e o Senhor lhe apareceu prometendo dar à sua semente aquela terra (12.6,7). E, de lá, passou por Betel e o Neguebe (12.8,9).

Abrão mal chega à nova terra, enfrenta dificuldades: há uma fome na terra, e se vê obrigado a descer ao Egito, onde pede para Sarai dizer que é sua irmã, e não sua esposa (12.10 – 13.1), fazendo com que ela fosse tomada ao harém de Faraó; os seus pastores se desentendem com os pastores de seu sobrinho Ló, o que obriga a se separem um do outro (13.2 – 5, 7 – 9). Ló opta então por morar nas campinas do Jordão, onde estava Sodoma e Gomorra (13.10 – 11a), cidades conhecidas pela perversidade (13.13). O Senhor mais uma vez promete-lhe a posse da terra na qual se encontrava (13.14 – 18).

O relato encontrado em 14.1 – 24 é considerado por muitos javista, mas alguns supõem ser de uma fonte muito antiga e desconhecida. Refere-se a Abrão como o hebreu (14.13), não como um gentílico, mas possivelmente como a descrição de sua classe social (hebreu aqui seria uma referência àqueles que estão socialmente à margem). Usa para Deus o título El Elyion (o javista utiliza Elohim, mas evita o uso de El, provavelmente por ser uma referência ao El do panteão cananeu).

Abrão passa por outro momento de crise: o Senhor lhe prometera a posse da terra para seu descendente, mas seu único herdeiro parece ser o damasceno Eliezer (15.1,2). O Senhor o certifica que seu herdeiro será um que sairá de suas entranhas (15.4), e Abrão creu, e foi-lhe isto imputado por justiça (15.6). O Senhor ratifica com um pacto (15.12, 17 – 21). A serva egípcia de Sarai, Agar, fica grávida de Abrão (16.1b,2). Devido a desentendimentos com Sarai, foge para o deserto, onde um anjo lhe aparece fazendo promessas de que o filho que estava para gerar seria uma grande nação, e seu nome seria Ismael (16.4 – 14). A partir daí, o javista não fornece mais nenhuma informação acerca desse filho de Abrão. Porém, por um momento, parece que a promessa de um descendente feita no capitulo 15 falhara.

Para consolar Abrão, três varões (sendo que um era o Senhor! O antropomorfismo javista levado às ultimas conseqüências!) aparecem a Abraão (a mudança de nome pela primeira vez aparece – 18.1- 8), prometendo que a despeito da idade avançada de Sara (o nome de Sarai também é mudado, sem explicações) ela terá um filho, que cumprirá as promessas feitas pelo Senhor a Abraão (18.9 – 15). O Senhor revela então que destruirá Sodoma e Gomorra, devido à maldade dessas cidades (18.16 – 22). Mais uma demonstração do fervor antropomórfico do javista: em 18.22, ela declara que Yahweh ficou ainda em pé diante da face de Abraão! Algo chocante aos olhos do judaísmo posterior, até mesmo agressivo. Por isso, os escribas deliberadamente mudaram aqui o texto para “mas Abraão ficou ainda em pé diante da face do SENHOR”. Abraão, lembrando que lá está morando seu sobrinho Ló, pergunta ao Senhor se o justo seria destruído juntamente com o ímpio (18.23). Dois daqueles varões, que já haviam saído rumo a Sodoma e Gomorra (18.16,22), procuram então livrar Ló e seus familiares da destruição, mas somente Ló e duas de suas filhas conseguem se salvar (19.1- 28). O javista relata então como a partir do incesto das duas filhas de Ló com o próprio pai nasceram Ben-Ami e Moabe, antepassados dos amonitas e moabitas, respectivamente (19.30 – 38).

Finalmente a promessa é cumprida: nasce o filho de Abraão com Sara (21.1,2,7). Sem explicar a origem do nome, em 24.4 revela que o nome deste filho é Isaque. Embora a prova que Deus impõe a Abraão em 22.1 – 18 seja proveniente de outra fonte, esta possui acréscimos javistas: o nome Moriá em 22.2, e o trecho de 22.14 – 18, explicando a origem do nome Yahweh Yireh. O javista acrescenta a lista dos descendentes de Naor (22.20 – 24), mostrando então o nascimento de Rebeca e preparando a longa historieta acerca do seu casamento com Isaque (24.1 – 67). O javista interrompe abruptamente a história de Abraão com a lista dos seus filhos com Cetura (25.1 – 6), sem explicar sua morte (isto fica subentendido em 24.1 – 9, 65), e a menção de onde Isaque passou a habitar (24.11b), preparando a história de Jacó.

História de Jacó

Percebemos que o javista dá muita pouca atenção a Isaque. Exceto em 26.1 – 33, este sempre está ou em conexão com Abraão (e.g., 24.1 – 67) ou com seu filho Jacó (e.g., 27.1 – 45). Isto apesar de ser o cumprimento das promessas de Deus! Enfrentou o mesmo problema da esterilidade de sua mulher (25.21), a fome na terra (26.1 – 5), e também mentiu dizendo que sua esposa era sua irmã (26.6 – 11). Seguiu bem de perto as pisadas de seu pai Abraão. Mas Jacó receberá uma atenção especial, pois através da sua mudança de nome para Israel (32.22 – 32) nomeou toda uma nação.

Mas apesar de sua importância dentro do plano divino de constituição de um povo, ele é o extremo oposto de Abraão. Sempre está envolvido em trapaças: já por ocasião de seu nascimento engana o próprio irmão gêmeo, Esaú, segurando-o pelo calcanhar, tentando já conseguir a primogenitura, recebendo por isso o nome de Jacó (Yaaqov, um trocadilho com a palavra aqev, calcanhar: 25.21 – 26); aproveitando-se que seu irmão chegara cansado do campo, astutamente troca um prato de guisado pelo direito à primogenitura deste (25.27 – 34); auxiliado pela própria mãe, e aproveitando-se que Isaque está no leito de morte, rouba de Esaú a bênção que lhe estava reservada como primogênito (27.1 – 40).

Com medo da vingança de seu irmão, prometida após o período de luto de Isaque, foge para junto de seu tio Labão (27.40 – 45). Parte então de Berseba e dirige-se a Harã, onde seu tio mora (28.10; e não Padã-Arã, como em 28.2). No caminho, o Senhor lhe parece em um sonho, fazendo promessas (28.11a, 13 – 16, 19). Chegando a seu tio, enamora-se por Raquel, por quem decide trabalhar sete anos em vistas ao casamento; mas é enganado por Labão, que lhe dá sua outra filha Lia, e deste modo desposa as duas irmãs mediante o trabalho de mais sete anos (29.1 – 30). Nascem doze filhos e uma filha (29.31 – 35; 30.4 – 5,7 – 16, 21, 24). Como Jacó ama mais a Raquel, e em face da esterilidade desta (29.30,31), há uma rivalidade muito grande entre ela e Raquel (30.1). Repetindo o episódio de Sarai com Agar, tanto Lia quanto Raquel usam servas: Raquel, por causa e sua esterilidade, usa Bila (30.1 – 8), e Lia, quando cessa de conceber, utiliza Zilpa (30.9 – 13)

Jacó enriquecer-se, mais uma vez usando de engano (30.25 – 43). Labão e seus filhos, percebendo, já não são amistosos, e o Senhor ordena a Jacó que volte a terra de seus pais (31.1- 3). Prontamente se foi com suas mulheres e seus filhos (31.17). Fugiu, esquivando-se de Labão, que ao saber o perseguiu (31.19a, 20 – 23: o javista desconhece o episódio do furto dos ídolos). Alcançando-o nas montanhas de Gileade, replica por que aquela fuga em oculto (31.25b, 27, 30a). Jacó revelou temer que lhe tomasse as esposas (31.31). Jacó então contendeu com Labão, mostrando como foi seu procedimento nos vinte anos que esteve com ele (31.36a, 38 – 40). Resolvem então fazer um pacto de reconciliação (31.46 – 49; 51 – 53a).

Ao voltar à sua terra, teme reencontrar seu irmão Esaú. Toma então providências com relação à sua família, ao saber que Esaú vem a seu encontro com quatrocentos homens, e clama intensamente ao Senhor (32.3 – 11). Passando ali a noite, após fazer atravessar sua família e bens pelo vau de Jaboque (32.13a, 22, 23), ocorre o episódio da luta de Jacó com um varão até a subida da alva. No desenrolar da história, fica claro que este varão é o próprio Senhor (32.24 - 29). É a mais extraordinária narrativa antropomórfica do javista, levada às últimas conseqüências. Um homem, lutando com o próprio Senhor, como quem luta com um mortal? A partir de 32.28, o javista deixa de usar o nome Jacó para este neto de Abraão e passa a utilizar o nome Israel, “aquele que lutou com Deus e com os homens e prevaleceu” (provavelmente mais uma explicação popular da etimologia deste nome, que é incerta). Ainda explica a etimologia do nome Peniel e do suposto costume de não comer o nervo da juntura da coxa (32.30 – 32).

O grande momento do reencontro com Esaú chega, cheio de suspense (33.1 – 3). A tradição javista não mostra uma cena emocionada de reconciliação; antes, mostra que Esaú o convida para Seir, o qual a princípio Jacó concorda, mas desconfiado das reais intenções de seu irmão, desvia-se e parte para Sucote (33.12 – 17). Aqui o javista acrescenta então o relato do estupro de Diná por Siquém, o pacto realizado com Jacó e como de forma violenta Simeão e Levi violaram o mesmo (34.1 – 31); e o relato do incesto de Rúbem (35.21,22a). Provavelmente, estes dois relatos procuram explicar de que forma Judá veio a ter ascendência, uma vez que Rúbem, Simeão e Levi eram os irmãos mais velhos, e preteridos com relação à primogenitura.

História de José

A história de José passa a ser contada para explicar de que maneira os filhos de Israel alojaram-se no Egito, onde encontraram a escravidão. O javista não reconhece que José tenha sido um perito intérprete de sonhos, nem que tenha alcançado por isto um posto tão elevado como o de governador do Egito, o segundo após Faraó (40 – 41). Tão pouco reconhece os relatos dos seus filhos, e de como Jacó teria abençoado Efraim (48). Se assim procedesse, estaria comprometendo a excelência de Judá – lembremos que a tribo de Efraim, filho de José, liderou a revolta que provocou o cisma político-religioso no reinado salomônico (1 Rs 11.26 – 12.33). Por isso, defendendo a tribo de Judá, mostra a sua origem (38.1 – 30), e como interveio a favor de José (37.22,26) e se torna responsável pelo retorno de Benjamin (43.8,9), e de como Jacó lhe reserva uma bênção especial (49.8 – 12). É uma narrativa que parece ter pouca contribuição javista, ou muitas adaptações da mesma: torna-se notório que o antropomorfismo e o relacionamento direto de Deus com o homem, conversando com o mesmo como se fosse face a face, tão típicos do javista, desaparecem totalmente nesta narrativa.

Israel ama José mais do que seus outros filhos, o que provoca ciúmes ardentes neles (37.2b – 4). Os ciúmes desenvolveram-se para ódio, quando José lhes relata dois sonhos, que dava a entender que todos lhe seriam submissos (37.5 – 11). Seus próprios irmãos então pretendem matá-lo (37.12 – 20). Vêem uma caravana de ismaelitas passando em direção ao Egito (37.25). Judá então intervém, dizendo que seria melhor vender José àquela caravana do que matá-lo (37.26,27). José então é vendido por vinte moedas de prata e levado ao Egito (37.28b).

No Egito foi vendido a Potifar, eunuco de Faraó, onde alcançou destaque pela habilidade demonstrada para os negócios, pois o Senhor era com ele (39.1 – 6). Mas foi seduzido pela esposa de Potifar (39.7 – 12). Como a mulher de Potifar inverteu a situação, dizendo que ela é que tinha sofrido tentativa de sedução (39.13 – 18), Potifar o mandou para a prisão real (39.19,20). Porém, novamente ali o Senhor o fez prosperar, onde alcançou o mesmo destaque que possuía na casa de Potifar (39.21 – 23). Por ocasião do primeiro encontro com seus irmãos (42.4 – 5, 8 – 11a, 12, 26 – 28a, 38), entendemos que na visão do javista José chegou-se a Faraó e alcançou notoriedade por conta desta bem sucedida empreitada na prisão real. Tornou-se então um regente – moshel, 45.8,26, e não um shalit, como em 42.6.

Os irmãos de José, exceto Benjamin, descem ao Egito à procura de alimentos que estavam escassos em Canaã (42.4,5). José os encontra, reconhece-os – embora não seja reconhecido pelos seus irmãos – e também lembra dos seus sonhos que motivaram sua venda até àquela terra (42.8 – 9a). Motivado pelo rancor, acusa seus próprios irmãos e espiões (42.9b). Estes tentam se defender da acusação, apesar da reticência de José (42.10 – 12). A despeito desta discussão, conseguem levar trigo, e antes de chegarem a Canaã, descobrem o dinheiro devolvido dentro de seus sacos (42.26 – 28). Percebendo que precisarão voltar, Israel adverte a não levarem Benjamin (42.38).

Os temores de Israel mostram-se verdadeiros. A fome continua gravíssima, e os mantimentos novamente acabam, obrigando um retorno ao Egito (43.1,2). Judá então revela que o varão egípcio (José) os advertira que, se não trouxessem o filho mais novo, Benjamin, não poderiam comerciar naquela terra (43.3 – 5). Há relutância da parte de Israel, que cede quando Judá se compromete a protegê-lo por todos os meios possíveis (43.6 – 10). Encaminham-se então ao Egito, levando provisões em dobro, para devolverem o dinheiro que anteriormente haviam encontrado e comprarem mais alimentos (43.11 – 25: certamente El Shaddai em 43.14 é uma glosa proveniente de outra fonte, pois o javista não reconhece o epíteto cananeu El). José, ao encontrar Benjamin, muito se emociona, e promove um banquete com todos os irmãos (43.26 – 34). Parece que o desejo de vingança equilibra-se entre o de ficar junto ao seu irmão mais novo Benjamin, o qual não se envolveu na sua venda como escravo. Arma então um estratagema: manda seus servos colocarem seu copo de prata na boca do saco de Benjamin (44.1 – 2). Isto dá ocasião que sejam perseguidos antes que saiam da terra, e o veredicto de que Benjamin permaneceria como prisioneiro, enquanto os demais estariam livres (44.3 – 17). Judá então faz um emocionado apelo, que ele ficasse como refém no lugar de Benjamin, a fim de não matar de desgosto o pai (44.18 – 34).

José comove-se com as palavras de Judá, e então revela-se aos irmãos, e resolve reconciliar-se com eles (45.1,4,5a). Isto é relatado à casa de Faraó, que decide então convidar Israel e toda a sua parentela a descer ao Egito, onde usufruirão o melhor (45.16 – 28). Escreve então o emocionado reencontro de Israel e José (46.28 – 30), e como se instala na terra de Gósen (46.31 – 34; 47.1 – 4, 6b).

O javista ainda acrescenta a política agrária de José, colocando-o como o criador da lei que estabelecia Faraó como o proprietário de todas as terras no Egito (47.13 – 26). Omite qualquer detalhe acerca da morte de José: antes, prefere relatar a morte de Israel (47.29 – 31), a bênção que teria dado aos seus doze filhos antes de morrer (49.2 – 28; embora tudo indique que esta porção esteja ligada a outra fonte mais antiga e desconhecida) e seu sepultamento (50.1 – 11, 14).

2. A FONTE JAVISTA EM ÊXODO

O Êxodo foi um evento paradigmático para o povo de Israel. A experiência da saída do país da escravidão pela força de Iahweh, o Deus que se revela e age na história, era motivo de memória em festas, celebrações e mesmo em momento de afastamento dos desígnios salvíficos. A teologia de cunho latino-americano soube fazer uma releitura do Êxodo a partir de sua realidade de continente periférico e oprimido, recuperando a importância de tal evento na História da Salvação.

O javista começa narrando a opressão de Israel no Egito; onde o javista desconhece a narrativa das parteiras (1.8-12,22). Logo após, narra o nascimento de Moisés (2.1-10, embora existam dúvidas se é J, E, ou outra fonte documental). Êx 3,1-15 é considerado um relato em que J e E se encaixam um no outro. Podemos encontrar estas características misturadas com J no texto em questão, mas principalmente em expressões em que Deus não tem um encontro direto com Moisés mas o chama; Moisés cobre o rosto por temor a Ele (Êx 3,6). Êx 3,13-15, a revelação do nome divino, também é considerado E . É possível fazer uma distinção entre as fontes J e E no nosso texto a partir da figura de Moisés.

No relato J Moisés apareceu em todos os acontecimentos numa posição secundária: é Iahweh quem age, quem tira o povo da escravidão (cf. Êx 3,7-9). O narrador J atribui a Moisés um papel exíguo; sua vocação teria somente a finalidade de informar Israel sobre as intenções salvíficas de Iahweh. No entanto, na tradição E, a missão de Moisés tem maior relevo: é Moisés quem vai tirar o povo do Egito (Êx 3,10-15); Moisés é instrumento de Deus que opera os milagres intervém com o seu bastão. Elohim é um Deus transcendente que precisa de um mediador, Moisés, e deste ao povo um outro mediador, Arão (cf. Êx 4, 16). A seguir, vemos rapidamente o desenrolar dos acontecimentos:
5.1-6.1. Moisés solicita adoração no deserto.

6.9-12. 2ª objeção de Moisés. Determinação pessoal?

Soberania de Deus sobre os deuses egípcios

7.14-18,20b,21a, 23, 24. Água transformada em sangue

7.25-8.4,8-15. Praga das rãs

8.20-32. Praga das moscas.

9.1-35. Praga sobre o gado.

Soberania de Deus sobre

A natureza

9.13-35. Praga da Saraiva.

10.1-20. Praga de gafanhotos

11.1-8. Praga final.

12.21-23,27b. Instituição da Páscoa.

12.29-36. Praga. A morte dos primogênitos e libertação de Israel.

12.37-39; 13.20-22. Saída do Egito.

14.5-7,10-14. Os egípicios perseguem os israelitas.

14.19b-21b,24,25,27b, 30, 31. Israel atravessa o mar.

15.1-18. Cântico de Moisés.

15.22-25a, 27. Israel em Mara e Elim.

16.4,5,28-31, 35b,36. Provisão do maná.

17.2-7. Água da rocha.

O contexto sócio-histórico se depreende da situação histórica das fontes. A fonte J, surgida na corte salomônica, faz uma retrospectiva do passado para justificar e ratificar a monarquia, preservar a tradição e fornecer um senso de identidade e foco de unidade à liga tribal.

O Êxodo, como fato histórico e salvífico, foi um acontecimento fundamental para Israel, constituindo-se num evento radical, profundíssimo, no qual tanto Israel como nós devemos interpretar Deus e a nós mesmos. O Êxodo se converte em uma “reserva-de-sentido” inesgotável, e como tal, é acontecimento fundante de acontecimentos derivados que lhe enriquecem o significado, de modo que tem mais importância na época do último relato escrito (sacerdotal, séc. V a.C.) do que quando aconteceu historicamente (séc. XIII a.C.), e por isso torna-se mensagem: “Não se trata de um fato isolado que aconteceu por volta do séc. XIII a.C., mas de um fato refletido, aprofundado, explorado pela fé e captado em todas as suas projeções. Daí se deduz que a narração do livro do Êxodo ‘diz’ muito mais do que aconteceu naquela época”(CROATTO, 1981, p.39).

As tribos hebréias oprimidas no Egito fizeram a descoberta da presença de Deus por trás de fatos históricos. A escravidão a que eram submetidos produzia-lhes uma tal alienação que os tornava incapazes de esperar salvação (cf. Êx. 6, 9), como acontece com nosso povo latino- americano, aceitando passivamente a realidade que vive. É interessante observar que a opressão a que israel está submetido é de ordem político-social, e Deus veio ao seu encontro para libertá-lo e salvá-lo na sua totalidade, não só e nem primeiramente em nível espiritual. Deus se revela primeiramente como salvação e libertação em ordem política e social. Tal constatação tem conseqüências hermenêuticas graves para uma releitura da mensagem do Êxodo em nossa América Latina atual. Êxodo 3.7-9 fala do gemido e clamor do povo israelita. Porem, tal relato é claro, posterior ao acontecimento; provavelmente o povo nem gemer o fazia, pois o alienado não tem consciência do que pode ser e fazer, mas aceita que as coisas são como estão. O acontecimento do êxodo engendrará a consciência de liberdade do povo. No entanto, a este clamor ou alienação silenciosa dos israelitas Deus responde chamando e enviando Moisés e revelando o seu nome, Yahweh, “o-que-há-de-existir”, nome dinâmico que muito posteriormente foi entendido ontologicamente. A manifestação de Deus conscientiza o ser humano de sua vocação à liberdade como desígnio salvífico ao qual não pode recusar-se. As objeções de Moisés(êx.3.11-13; 4.1,10-13) são projeções das dúvidas e desconfianças do povo prostrado e alienado. Diante de tal desígnio, o opressor endurece-se e oprime ainda mais.

Visão Teológica

Durante todo o processo de libertação, cuja ação foi atribuída ao Deus Javé, principalmente depois da saída do Egito, a consciência do povo foi clareando e, assim, foi se formando uma identificação entre Deus e o povo. Desse modo, para este povo, Deus é aquele que foi se revelando como alguém presente nas lutas, e que passa a fazer parte de sua história. É aquele que age através das pessoas, como no caso de Moisés. Deus é aquele age para libertar. Foi assim que aconteceu quando da vitória do enfrentamento com o destacamento do exército do faraó, o que permitiu a saída do Egito.

Toda esta experiência vivida por Moisés e seu grupo os preparou para descobrir Javé como Deus Libertador. Mais tarde, veio a tornar-se o Deus das tribos de Israel na "terra prometida" de Canaã.

Quem é Javé para esse povo?
Javé foi reconhecido pelo grupo de Moisés e por algumas tribos, chegando a se tornar o Deus principal das tribos da confederação de Israel na época dos Juizes.

Javé é aquele que escuta o clamor do seu povo oprimido e o liberta. Não está ligado a sistemas opressores dos reis e faraós, como o do Egito. Pelo contrário, ele está no deserto e na montanha (Sinai, e não Horebe) agindo no meio de seu povo, pobre, camponês e pastor. É o Deus que fez uma aliança com o povo.

O povo vê em Javé o Deus que protegia os seus antepassados, o Deus e Abraão, Isaac e Jacó. Ele é o Deus de Libertação

Dimensão Ideológica

O Estado, representado pela autoridade máxima do faraó, com todo o seu aparato: corte, exército, sábios, sacerdotes e capatazes, não podia admitir que estes hebreus fossem reivindicar seus direitos. Mas, ao contrário do que se pensava, na resistência contra a dominação do Faraó, forjou-se a unidade dos que se propunham a fugir.

O grupo reunido em torno de Moisés ainda não conhecia o Deus chamado Javé. E quando este se revelou a ele, disse ser o Deus de seus antepassados.

O Deus Javé se revelou a Moisés, mostrando-se ser aquele que teve compaixão do sofrimento do seu povo e que desceu para libertá-lo. Ele chama Moisés para ajudar nesta missão. Daí, Moisés seria, então, uma espécie de líder, capaz de ajudar o povo a sair da escravidão do Egito e forjar um novo sistema social numa nova terra, "a terra onde corre leite e mel", ou seja, onde o povo viria a ser livre. Assim, Javé se tornou o Deus de todo povo de Israel, pois tudo o que tinha acontecido no processo de libertação foi por obra dele.

Desse modo, o acontecimento do Êxodo marcou profundamente não só a Moisés e o povo como também toda a fundação das tribos que surgiram posteriormente. É daí que esse acontecimento tornou-se o fato fundamental da história do povo, grande foi seu significado para a fé das tribos.

E o povo passou a cantar a vitória, como conta o capítulo 15 do Livro do Êxodo, reconhecendo a ação de Deus na sua vida.

3. A FONTE JAVISTA EM NÚMEROS

Todo o início do livro de números até 10.28 pertence à tradição “sacerdotal”. Reencontramos a tradição “Javista” no cap. 10.29 do livro de números, que vai até o fim do cap. 14 uma combinação com elementos “Eloístas”.

Acredita-se que os capítulos 10, 33-36, 11; 17.24-30; 12 seria sem dúvida uma tradição Eloísta. Nos capítulos 13-14, esta tradição complexa é combinada com a tradição “Sacerdotal”.

Números 10.29-32 ® Moisés e Hobab (Jetro?). Israel tinha necessidade de guias para atravessar o deserto. Para isto, Moisés dirige-se aos midianitas, tribo do deserto à qual estava ligado por sua mulher Siporá. – O texto não é bem claro, pois não se sabe se Hobab (Jz 1, 16; 4, 11) ou Reuel (Ex 2, 18) é o sogro de Moisés, tanto mais que EX 18, 1 lhe dá o nome de litrô. Há várias tradições divergentes que aliam Moisés seja aos gentios (Hobab é gentia), seja aos midianitas (Reuel, litrô). A primeira parece ter suplantado a segunda quando a hostilidade entre Midian e Israel se desenvolveu (25, 17-18; 31, 1-18). Há possibilidade de esclarecer o texto supondo que Reuel é nome de tribo, o que daria Hobab, o reuelita, ou então dando a hotên, “sogro”, o sentido mais amplo que ele às vezes tem: “parente por aliança”.

A expressão “Javista”: “tu serás nossos olhos”; veio expirar uma expressão corrente entre os nômades ou beduínos até o dia de hoje: “o olho da caravana”.

Números 10.33-36 ® A arca portátil. Javista ou Eloísta? Na edição “massorética” do texto hebraico um sinal especial indica que os vv 35 e 36 não estão em seu lugar. Efetivamente, estão pouco ligados ao contexto; o grego transpõe o vv 34 para depois do vv 36, o que seria lógico.

Números 13.17b – 20, 22-24, 27-33 ® No vv 17b, a montanha designa os montes da Judéia. Vê-se pelo vv 22 que, na perspectiva “Javista”, a exploração se limitou ao sul deste maciço, ao passo que para a tradição “sacerdotal” ela se estende a todo o futuro território de Israel.

O retrato “sacerdotal” faz os exploradores percorrerem a terra de ponta a ponta, o que representa um trajeto de 600 km. No relato “javista” (v 22), ele não ultrapassam Hebrom, a 120 km de Qadesh.

No versículo 26 Qadesh está no deserto de Sin (20,1; 33,36), temos aqui a junção de dois relatos, o “sacerdotal” que situa o povo no deserto de Paran e o “javista” que o situa em Qadesh.

No versículo 29 trata-se do Mediterrâneo. Temos aqui, na pena do “javista”, a descrição precisa em todo Bíblia das populações palestinas.

Números 14.1-4, 11, 25 ® Israel murmura contra Moisés e Yahweh.

Números 14.39-45 ® Derrota de Israel em Horma.

Números 16.1b, 2a, 12-15, 25-32a, 33, 34 ® Esta passagem resulta da fusão de dois relatos: o “Javista” – “Eloísta” (revolta de Datan e Abrirâm contra Moisés) e o “sacerdotal” (revolta de Qôrah contra Aarão).

Números 20.19-20, 22a ® Edom recusa passagem a Israel.
Números 21.1-3 ® Vitória na batalha de Horma. Esta narrativa de tradição antiga, mas é encontrada, aqui, fora do seu contexto. Horma foi tomada pelos simonitas, que subiram diretamente do sul (Jz 1, 16-17). A derrota de Horma, de Nm 14,39, é posterior.

Números 21.4-9 ® Serpente de bronze. A tradição Javista nos leva a relacionar esta história com as minas de cobre da Arabá, onde o metal já era explorado no Século XIII a.C. Acharam-se em Meneyeh (hoje timna) diversas pequenas serpentes de cobre que sem dúvida eram utilizadas, com a de Moisés, para se proteger contra as serpentes venenosas. Esta região mineira da Arabá se encontra no caminho de Cades a Ácaba (cf. v 47).

Números 21.10-20 ® Movimento de Israel através da transjordânia. Esta narrativa é continuação da fonte “Javista”, interrompido desde 20.22a.

Números 22.3b-8,13-19, 21-37, 39, 40 ® Balaque chama Balaão para amaldiçoar Israel. A história de Balaão, sem vínculo determinado com a narrativa da marcha para Canaã, foi objeto de, ao menos, dois relatos distintos, entremeados ao longo dos capítulos 22.24. Segundo um deles (“Eloísta”?), Balaão era um adivinho arameu ou emorita, adorador do Senhor, de quem recebia a própria inspiração, ele não cedeu às instâncias do rei Moab, antes de ter sido expressamente autorizado por Deus a fazê-lo. De acordo com o outro relato (“Javista”?), ele era midianita (cf. 31,8); pôs-se a caminho para atender ao apelo de Balaque sem a permissão de Deus, barrado pelo anjo, teve que retornar, e Balaque, em pessoa, teve de ir procurá-lo.

Os dois relatos derivam de uma tradição muito antiga, segundo a qual Balaão era um mago de temível poder (cf. v 6). Esta tradição atesta a antiga concepção de bençãos e maldições: Uma vez pronunciadas, eram irreversíveis. O Senhor só podia preservar seu povo das maldições de Balaão impedindo o adivinho de proferi-las. Trata-se, de uma tradição estranha a Israel, que os relatos “Javista” e “Eloísta” assimilaram, apresentando Balaão como projeta do Senhor (apesar das resistências dele, conforme um dos relatos). Mas a Bíblia também conservou a imagem primitiva de um Balaão hostil a Israel: Nm 31.8, 16, Dt 23.5; Is 13.22; 24.9; II Pe 2.15-16; Ap 2.14.

Números 23.28, 24.2 ® Oráculos de Balaão.
Os dois poemas do capítulo 23 pertencem à tradição “Eloísta” e sem dúvida prolongam o primeiro relato do capítulo 22. Os poemas do capítulo 24 são capítulo e se relacionam com o segundo relato do capítulo 22. No texto “Javista” primitivo, 23.29 devia seguir 22.40. Os versículos 27 e 28 foram acrescentados para assegurar uma transição entre os dois conjuntos.

Neste relato “Javista” mostra Balaão sob o efeito de uma súbita inspiração (cf. ii Rs 3.15), ao passo que no capítulo 23 recebia a mensagem antecipadamente e tinha tempo para refletir sobre ela. Aqui ele é apresentado como uma “vidente” que emprega uma linguagem muito figurada.

Números 25.1-5 ® Apostasia de Israel em Peor. Este capítulo é formado por dois relatos, um dos quais (“Javista”) fala das filhas de Moab, e o outro (“sacerdotal”) de uma midianita (vv 6-18). O relato Javista não cita Finéias.

Números 32.1, 16-19, 24, 33-42 ® Distribuição de terra na transjordânia. Este capítulo de estilo deuteronomizante, com marcas de redação sacerdotal, usa uma fonte antiga (javista) vv 1-4, 16-19.

4.CONCLUSÃO: MENSAGEM QUERIGMÁTICA

O querigma javista em Gênesis enfatiza o homem cercado de privilégios, não tendo motivo algum para se rebelar contra Yahweh, e se afastando cada vez mais dele, embora Yahweh sempre esteja bem próximo do homem. Por isso, ressalta-se o papel de Israel não com propósitos estritamente nacionalistas, mas também em vista da humanidade decaída e carente da graça divina. Se o homem não pode escapar da justa ira divina, a qual Yahweh executa sobre o pecado, o homem sempre teve à sua disposição a graça amorosa divina. Se os mais afamados heróis da fé, como Abraão, nem por isso escaparam de cometer erros, isso não gera desculpas para que procedamos da mesma forma. Ao contrário: o convite é a evitarmos tais procedimentos, não por constrangimento ou pressão, antes movidos pelo amor de Yahweh – amor este demonstrado desde o início, na criação de todas as coisas.

O querigma da liberdade que o êxodo anuncia nos leva a refletir sobre quatro temas, entre outros:
salvação e libertação. A experiência salvífica do êxodo se deu como libertação política e social, na descoberta de Deus/Yahweh que se revela e atua na história. Esta é também a experiência que os povos latino-americanos tem feito, a partir de uma reflexão teológica contextualizada.

A revelação do líder. Deus não salva diretamente, mas se serve de mediadores humanos para fazer-se presente na história. É através de pessoas e acontecimentos, mesmo aparentemente desvinculado de uma perspectiva religiosa, que Deus se revela. Será que percebemos estas novas formas da presença de Deus em nossa história, os novos Moisés que são instrumentos de libertação do nosso povo?

Uma consciência de liberdade. O êxodo se constituiu para os israelitas numa experiência de sua vocação à liberdade o que se tornou mensagem para todo ser humano. Sendo a liberdade um valor intrínseco do ser humano, tal deve ser a bandeira de nossa práxis cristã enquanto igreja instituição e carisma.

Violência. O contrário de amor não é violência, mas o ódio. Assim, amor e violência podem se encontrar numa situação de injustiça generalizada. É o que nos relata o êxodo: Deus age com energia, usa de força para libertar o povo depois do endurecimento do Faraó diante do pedido pacífico de Moisés (Êx. 3.18ss). O recurso é o uso da força, uma vez que a opressão é intolerável. “a injustiça é um bem radical que reclama do amor (ainda que pareça paradoxal) uma situação violenta”. Nossa ação como cristãos deve considerar tudo isso para não incorrer no risco de tornar-se ópio do povo.

O querigma javista em Números ressalta o binômio constância divina X inconstância humana. Enquanto o homem se mantém inconstante em relação a Yahweh, murmurando a despeito de suas bênçãos demonstradas, Yahweh sempre está disposto a perdoar e a abençoar o povo. Basta verificar o episódio de Balaão (22 – 24) com a apostasia de Israel em Peor. O javista aqui nos convida a meditar: existe razão real para murmurarmos?

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